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Geopolítica 15 de maio de 2026 às 12:00 · Redação FWD

Disputa geopolítica por cabos submarinos na América Latina acende alerta para empresas brasileiras

Um recente relatório dos Estados Unidos intensifica o alerta sobre a crescente influência estratégica da China na América Latina, com foco em infraestruturas críticas como portos, satélites e, notavelmente, cabos submarinos. Essa disputa tecnológica e de poder tem implicações diretas para a segurança de dados, a resiliência da conectividade e as decisões de investimento de empresas brasileiras com atuação internacional ou alta dependência de tráfego de dados.

Disputa geopolítica por cabos submarinos na América Latina acende alerta para empresas brasileiras
Foto: cnrdmroglu no Pexels

A infraestrutura invisível que sustenta a internet global, os cabos submarinos de fibra óptica, emergiu como um novo e crucial campo de batalha na crescente disputa geopolítica entre Estados Unidos e China. Um relatório recente do governo norte-americano, divulgado em 12 de maio de 2026, acendeu um alerta sobre a expansão da presença estratégica da China na América Latina, destacando o controle sobre portos, satélites e, em particular, os cabos submarinos como ativos de dupla finalidade, civis e militares. O Brasil, por sua posição geográfica privilegiada e por ser um hub de conectividade na região, é citado como um dos países onde essa influência chinesa tem se ampliado.

O que mudou na prática

O relatório dos EUA intensifica a preocupação de Washington com o avanço da China em infraestruturas digitais críticas na América Latina. Anteriormente, a discussão focava mais em investimentos comerciais e financeiros. Agora, a ótica se desloca para a segurança nacional e o potencial de uso estratégico desses ativos. A acusação é que estruturas civis, como estações terrestres, radiotelescópios e cabos submarinos, podem ser utilizadas para ampliar as capacidades espaciais e de coleta de inteligência de Pequim.

Essa preocupação não é nova, mas ganha contornos mais explícitos. Em março de 2026, por exemplo, um projeto chileno para um cabo submarino direto entre o Chile e a China, que visava reduzir a dependência das rotas de dados via América do Norte, enfrentou uma crise política interna e pressão dos EUA. Washington chegou a sancionar funcionários chilenos envolvidos, demonstrando a firmeza em limitar a influência chinesa em infraestruturas consideradas críticas na região. Especialistas em telecomunicações alertam que um cabo chinês direto poderia dar a Pequim maior visibilidade sobre o tráfego de dados regional, incluindo o Brasil.

No Brasil, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já reconhece a importância estratégica dos cabos submarinos. Em fevereiro de 2026, a agência incluiu na sua Agenda Regulatória 2025-2026 a revisão e atualização das regras aplicáveis a essa infraestrutura. O objetivo é consolidar o arcabouço normativo, garantir a segurança jurídica dos investimentos e, crucialmente, mitigar riscos de segurança física e cibernética, além de buscar a diversificação dos pontos de aterrissagem, que hoje se concentram em Fortaleza. A Anatel já havia ampliado o escopo de seu Regulamento de Segurança Cibernética em 2024 para incluir explicitamente operadoras de cabos submarinos internacionais.

Impacto e por que importa para decisões de negócio

Para empresas brasileiras com presença internacional ou que dependem intensamente do tráfego de dados, essa escalada na disputa geopolítica tem implicações diretas e significativas:

  • Segurança de Dados e Conformidade: A origem e o controle dos cabos submarinos por onde trafegam os dados se tornam um fator crítico. Empresas precisarão avaliar a segurança e a integridade de suas comunicações, considerando os riscos de espionagem ou manipulação de dados por atores estatais, conforme alertado por autoridades dos EUA. A conformidade com regulamentações de proteção de dados, como a LGPD, pode ser afetada pela infraestrutura subjacente.
  • Resiliência da Conectividade e Continuidade de Negócios: A vulnerabilidade dos cabos submarinos a danos, sejam acidentais (âncoras, pesca) ou intencionais (sabotagem), pode causar interrupções significativas na conectividade, afetando latência, custos de tráfego e a estabilidade de serviços digitais. Empresas que dependem de cadeias de suprimentos globais, serviços em nuvem e comunicação em tempo real precisam de rotas diversificadas e resilientes.
  • Decisões de Investimento em Infraestrutura: O cenário geopolítico influencia onde os novos cabos são construídos e onde os data centers são instalados. Empresas de tecnologia, provedores de cloud e até mesmo setores tradicionais que investem em digitalização precisarão considerar o alinhamento político e as implicações de segurança dos parceiros de infraestrutura. A preferência por tecnologia ocidental ou chinesa pode moldar as decisões de infraestrutura.
  • Custo e Competitividade: Qualquer disrupção ou aumento de risco pode levar a custos mais altos para garantir a segurança e a resiliência da rede. Isso pode impactar a competitividade de empresas brasileiras no cenário global, especialmente aquelas que buscam se consolidar em mercados digitais intensivos.
  • Regulação e Governança: As novas regras da Anatel para cabos submarinos e data centers exigirão que as empresas revisem suas políticas de segurança cibernética e de gestão de riscos, garantindo a conformidade com as exigências regulatórias nacionais.

O que monitorar e próximos passos

Empresas brasileiras devem monitorar de perto os seguintes pontos:

  • Evolução da Regulação da Anatel: A agenda regulatória da Anatel para cabos submarinos e segurança cibernética trará novas obrigações. Acompanhar as consultas públicas e as resoluções é fundamental para garantir a conformidade.
  • Desenvolvimento de Novos Cabos e Rotas: Observar a construção de novos cabos submarinos na América Latina, sua propriedade e os países envolvidos. Projetos que visam diversificar as rotas de conectividade, especialmente para a Ásia, podem oferecer alternativas estratégicas.
  • Posicionamento Geopolítico do Brasil: A postura do governo brasileiro em relação à infraestrutura digital e à disputa entre EUA e China pode influenciar o ambiente de negócios. A busca por uma estratégia nacional robusta para cabos submarinos, incluindo diversificação de rotas e proteção física e cibernética, é crucial.
  • Incidentes de Segurança: Monitorar incidentes de segurança, sejam acidentais ou intencionais, que afetem cabos submarinos globalmente, pois podem indicar tendências de risco e vulnerabilidades.

Em um cenário onde a infraestrutura digital é cada vez mais crítica e alvo de disputas geopolíticas, a resiliência da conectividade e a segurança dos dados deixam de ser apenas questões técnicas para se tornarem imperativos estratégicos para a sustentabilidade e competitividade das empresas brasileiras.

Fontes consultadas

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