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Geopolítica 03 de junho de 2026 às 11:00 · Redação FWD

EUA propõem novas tarifas ao Brasil, que reage buscando fortalecer laços com a China

A administração Trump formalizou a proposta de tarifas de 25% sobre exportações brasileiras, citando práticas comerciais injustas e questões de trabalho forçado. Em resposta, o Presidente Lula da Silva reafirmou a importância da China como parceiro comercial, sinalizando uma possível reorientação das relações comerciais brasileiras e impactando empresas com exposição cambial e internacional.

EUA propõem novas tarifas ao Brasil, que reage buscando fortalecer laços com a China
Foto: www.kaboompics.com no Pexels

A relação comercial entre Brasil e Estados Unidos enfrenta um novo capítulo de tensões. A administração Trump, por meio do Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), formalizou uma proposta de imposição de tarifas de 25% sobre uma vasta gama de importações brasileiras. A medida é justificada por uma investigação da Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que concluiu que certas práticas comerciais brasileiras são “irrazoáveis” e prejudicam o comércio norte-americano.

Em paralelo, o USTR também propôs uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos brasileiros, alegando falhas no combate ao “trabalho forçado” nas cadeias de produção, uma iniciativa que abrange 60 parceiros comerciais dos EUA. As propostas estão abertas para consulta pública, com uma audiência agendada para 6 de julho de 2026.

Em resposta, o Presidente Luiz Inácio Lula da Silva reagiu, destacando os crescentes laços comerciais do Brasil com a China e sinalizando que o país buscará mercados alternativos caso as tarifas americanas sejam implementadas. “Se não quiserem comprar de mim, venderei para outro”, afirmou Lula, enfatizando a decisão chinesa de reconhecer todo o território brasileiro como livre de febre aftosa, o que abre novas oportunidades para exportações de carne bovina e suína para o gigante asiático.

O que mudou na prática

A proposta de tarifas de 25% do USTR sobre o Brasil baseia-se em seis áreas principais de queixa: comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais consideradas injustas, aplicação de medidas anticorrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. Esta é uma escalada significativa nas tensões comerciais, que já haviam visto uma ameaça de tarifa de 50% em 2025, parcialmente ligada a processos legais contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

A investigação do USTR, iniciada em julho de 2025, coletou depoimentos de mais de 30 testemunhas e recebeu mais de 295 comentários públicos. Embora a proposta de tarifa de 25% possa substituir parcialmente a tarifa anterior de 50%, ela ainda representa um aumento considerável nos custos para exportadores brasileiros. No entanto, alguns segmentos, como minerais críticos (terras raras e nióbio), foram incluídos em uma lista de exclusão, refletindo o interesse dos EUA em reduzir sua dependência da China nesses materiais.

Simultaneamente, a China anunciou o levantamento das proibições relacionadas à febre aftosa em todo o Brasil. Essa medida, resultado de mais de 20 anos de negociações, é vista como um impulsionador significativo para as exportações agrícolas brasileiras, especialmente de carne bovina e suína, para o maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, a China já foi o destino de quase metade da carne bovina exportada pelo Brasil.

Em um contexto mais amplo, o acordo comercial provisório entre a União Europeia e o Mercosul entrou em vigor em 1º de maio de 2026, embora sua ratificação parlamentar completa esteja suspensa por um desafio legal no Tribunal de Justiça da UE. Contudo, a UE também informou o Brasil sobre a intenção de bloquear importações de produtos de origem animal a partir de setembro, devido a preocupações com a conformidade antimicrobiana, uma decisão que o governo brasileiro busca reverter.

Impacto e por que importa

Para as empresas brasileiras com presença internacional ou exposição cambial, as propostas de tarifas dos EUA representam um risco direto e substancial. Um aumento de 25% nos custos de importação para o mercado americano pode reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, forçando as empresas a absorver os custos, repassá-los aos consumidores ou buscar novos mercados. A XP Investimentos estima que a taxa efetiva média dos EUA sobre bens brasileiros poderia saltar de 12,2% para 18,5%. Setores como o de etanol, que já enfrentava desafios de acesso ao mercado americano, podem ser particularmente afetados.

As alegações de “trabalho forçado” também adicionam uma camada de complexidade e risco reputacional. Empresas brasileiras precisarão revisar suas cadeias de suprimentos e práticas de conformidade para evitar sanções e garantir que seus produtos não sejam associados a essas práticas. Além disso, a designação de organizações criminosas brasileiras como terroristas pelos EUA, embora não diretamente relacionada às tarifas, pode dificultar as operações de empresas americanas no Brasil e aumentar o risco de sanções a bancos brasileiros ou ao sistema Pix.

Por outro lado, a abertura total do mercado chinês para a carne brasileira, sem restrições de febre aftosa, oferece uma válvula de escape crucial. A China é o maior parceiro comercial do Brasil e o maior importador de carne bovina do mundo. Essa expansão pode compensar parte das perdas potenciais no mercado americano, reforçando a estratégia brasileira de diversificação de parceiros comerciais e reduzindo a dependência de um único mercado. A capacidade do Brasil de alavancar seus laços econômicos com a China se torna ainda mais evidente em um cenário de tensões comerciais com Washington.

O cenário atual ressalta a importância da agilidade e adaptabilidade para as empresas brasileiras. A diversificação de mercados, a revisão das cadeias de suprimentos e o investimento em conformidade regulatória se tornam imperativos para mitigar riscos e aproveitar novas oportunidades em um ambiente geopolítico e comercial cada vez mais volátil.

O que monitorar e próximos passos

As empresas brasileiras devem monitorar de perto o processo de consulta pública e a audiência do USTR, agendada para 6 de julho de 2026, para entender o escopo final e a implementação das tarifas propostas. Acompanhar as negociações entre os governos brasileiro e americano será fundamental, pois o Brasil já está avaliando estratégias para negociar a não imposição das tarifas ou a inclusão de mais setores na lista de exclusão.

É crucial que as empresas exportadoras para os EUA avaliem os impactos potenciais nas suas margens e considerem planos de contingência, como a busca ativa por novos mercados ou a renegociação de contratos. A expansão das exportações para a China, impulsionada pelo status de livre de febre aftosa, deve ser explorada ao máximo, com foco na adaptação às demandas e padrões do mercado chinês.

Além disso, a evolução do acordo Mercosul-UE e a resolução do desafio legal no Tribunal de Justiça da UE merecem atenção contínua, assim como os desdobramentos sobre a possível proibição europeia de importação de produtos animais brasileiros por questões antimicrobianas. A diversificação de mercados e a conformidade com as regulamentações internacionais serão pilares para a resiliência das empresas brasileiras no cenário global.

Por fim, o fortalecimento da indústria de semicondutores no Brasil, com parcerias estratégicas como as da Ceitec com a Global Power Technology e da Tellescom com grupos malaios, indica um movimento de longo prazo para reduzir a dependência externa em tecnologias críticas e pode gerar novas oportunidades de negócios internamente e na América Latina.

Fontes consultadas

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