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Geopolítica 12 de junho de 2026 às 11:00 · Redação FWD

Comércio Brasil-EUA desacelera e déficit aumenta em meio a tensões tarifárias

O comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos registrou uma desaceleração significativa nos primeiros cinco meses de 2026, com as exportações brasileiras para o mercado americano caindo pelo décimo mês consecutivo. O déficit comercial do Brasil com os EUA se aprofundou, enquanto as negociações para evitar novas tarifas propostas pela USTR continuam.

Comércio Brasil-EUA desacelera e déficit aumenta em meio a tensões tarifárias
Foto: Wolfgang Weiser no Pexels

O cenário do comércio internacional para empresas brasileiras é marcado por tensões crescentes com os Estados Unidos, evidenciadas por uma desaceleração no fluxo bilateral e um aumento no déficit comercial. Dados recentes da American Chamber of Commerce for Brazil (Amcham Brasil) revelam que as exportações brasileiras para os EUA registraram o décimo declínio mensal consecutivo em maio de 2026, aprofundando a incerteza para negócios com exposição cambial e dependência do mercado americano.

O que mudou na prática

Nos primeiros cinco meses de 2026, o comércio bilateral entre Brasil e Estados Unidos totalizou US$ 29,5 bilhões, uma queda de 14,3% em comparação com o mesmo período de 2025. As exportações brasileiras para os EUA somaram US$ 14 bilhões, representando uma retração de 16% e o nível mais baixo para o período desde 2022. As importações de produtos americanos também caíram 12,6%, totalizando US$ 15,5 bilhões. Consequentemente, o déficit comercial do Brasil com os EUA se ampliou em 43,3%, atingindo US$ 1,5 bilhão.

Essa queda é particularmente acentuada em produtos sujeitos a tarifas adicionais, que viram um declínio de 22,6%. Entre os principais fatores para a contração das exportações estão a redução nas vendas de petróleo bruto, café não torrado, produtos semiacabados de ferro e aço, e celulose.

Em paralelo, as negociações entre os dois países para evitar a imposição de novas tarifas propostas pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) continuam. A USTR recomendou a aplicação de uma tarifa de 25% sobre uma série de importações brasileiras, justificando a medida por práticas comerciais que considera “injustas”, incluindo as políticas brasileiras para o etanol e o sistema de pagamentos Pix.

O governo brasileiro, por sua vez, contesta as alegações da USTR, argumentando que a tarifa média aplicada pelo Brasil sobre as importações dos EUA é de apenas 2,7%, o que não justificaria a alegação de desvantagem para empresas americanas. O Brasil iniciou formalmente um processo de contestação contra os EUA na Organização Mundial do Comércio (OMC) em agosto de 2025, desafiando tarifas de 50% impostas sobre bens como carne, café e máquinas agrícolas. A atual rodada de negociações para evitar as novas tarifas tem um prazo até 15 de julho para uma decisão, embora haja esperança de que este prazo possa ser estendido.

Impacto e por que importa

A persistente desaceleração do comércio com os Estados Unidos e a ameaça de novas tarifas criam um ambiente de incerteza para empresas brasileiras que operam internacionalmente ou possuem exposição cambial. A redução das exportações afeta diretamente a receita de setores-chave da economia, como agronegócio e indústria, e o aumento do déficit comercial pode pressionar a balança de pagamentos do país.

Para empresas, a necessidade de diversificação de mercados e cadeias de suprimentos torna-se ainda mais premente. A declaração do presidente da Amcham Brasil, Abrão Neto, de que o comércio bilateral opera “abaixo do seu potencial” ressalta a importância de avançar nas negociações para evitar novas barreiras e criar condições para uma recuperação.

Nesse contexto, o Brasil tem fortalecido seus laços comerciais com a China, seu maior parceiro comercial. Recentemente, a China reconheceu todo o território brasileiro como livre de febre aftosa sem vacinação, abrindo um acesso mais amplo para a carne bovina brasileira no maior mercado consumidor do mundo. Em 2025, a China já era o principal destino da carne bovina brasileira, respondendo por 48% do volume exportado.

Além disso, autoridades chinesas e brasileiras se comprometeram a aprofundar a cooperação financeira e econômica, incluindo o apoio à emissão de títulos Panda soberanos pelo Brasil e a exploração de sistemas de pagamento em moeda local. Essa estratégia de diversificação é uma resposta direta às tensões com os EUA, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmando que o Brasil buscará outros compradores se os EUA impuserem tarifas.

O que monitorar e próximos passos

Empresas brasileiras devem monitorar de perto o desdobramento das negociações comerciais com os Estados Unidos, especialmente a decisão sobre as tarifas propostas pelo USTR até 15 de julho. A evolução do diálogo entre os presidentes Lula e Trump, que podem se encontrar na cúpula do G7 na França, será crucial.

Simultaneamente, aprofundar o conhecimento e a presença nos mercados asiáticos, especialmente na China, é uma estratégia vital. A expansão do acesso para produtos agrícolas, como a carne bovina, e a crescente cooperação em áreas como semicondutores e finanças, indicam uma mudança estrutural nas rotas comerciais do Brasil.

A busca por maior soberania tecnológica, exemplificada pela parceria entre a Ceitec e a Global Power Technology para a produção de semicondutores, também deve ser acompanhada. Iniciativas como essa visam reduzir a dependência externa em tecnologias críticas e podem abrir novas oportunidades para a indústria nacional.

Em suma, o ambiente de comércio internacional exige das empresas brasileiras uma postura proativa na gestão de riscos, na diversificação de mercados e na adaptação a um cenário geopolítico em constante reconfiguração.

Fontes consultadas

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