Agency FWD
Geopolítica 14 de junho de 2026 às 11:00 · Redação FWD

EUA propõem tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, citando práticas comerciais desleais

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) propôs tarifas adicionais de 25% sobre uma gama de produtos brasileiros, após uma investigação que concluiu que o Brasil adota práticas comerciais "irrazoáveis ou discriminatórias". A medida, que inclui preocupações com o acesso ao mercado de etanol, serviços digitais e desflorestamento ilegal, pode impactar significativamente exportadores brasileiros, que têm até 1º de julho para apresentar comentários públicos.

EUA propõem tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, citando práticas comerciais desleais
Foto: www.kaboompics.com no Pexels

O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR) anunciou em 1º de junho de 2026 a proposta de imposição de tarifas adicionais de 25% sobre uma série de produtos de origem brasileira. A medida é resultado de uma investigação, iniciada em 15 de julho de 2025, sob a Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que concluiu que certas práticas e políticas do Brasil são “irrazoáveis ou discriminatórias” e “onerosas ou restritivas” ao comércio dos EUA [3, 4, 5, 7]. A decisão final sobre a aplicação das tarifas é esperada até 15 de julho de 2026, após um período de consulta pública e uma audiência. [5, 11]

O que mudou na prática

A proposta do USTR visa aplicar uma tarifa adicional de 25% sobre quase todos os bens de origem brasileira exportados para os Estados Unidos, com algumas exceções. A investigação identificou seis áreas principais de preocupação nas práticas comerciais brasileiras: [3, 4, 5, 7, 8]

  • Acesso ao mercado de etanol: O USTR alega que o Brasil descontinuou um tratamento tarifário equilibrado para o etanol em 2017, reintroduzindo uma tarifa de 20% e, desde fevereiro de 2023, mantendo uma tarifa de 18% sobre o etanol dos EUA. Em contraste, o etanol brasileiro desfruta de tarifas significativamente mais baixas no mercado americano. As exportações de etanol dos EUA para o Brasil caíram 87% entre 2018 e 2025, de um pico de US$ 761 milhões para US$ 96 milhões [7, 9, 14, 16, 18].
  • Serviços de comércio digital e pagamentos eletrônicos: Foram citadas questões como ordens judiciais secretas para a remoção de conteúdo político e suspensão de perfis de usuários de empresas de mídia social dos EUA, incluindo X, Meta e Google, além de preocupações com o sistema de pagamentos instantâneos Pix [3, 4, 7, 9, 13].
  • Tarifas preferenciais injustas: O USTR apontou acordos comerciais preferenciais do Brasil com o México e a Índia que, segundo o órgão, desfavorecem as exportações dos EUA em setores competitivos [3, 4, 6, 7, 8, 13, 18].
  • Aplicação de medidas anticorrupção: A investigação considerou os esforços de aplicação da lei brasileira como insuficientes, citando preocupações levantadas pela OCDE e Transparência Internacional [3, 4, 6, 7, 8, 9, 13].
  • Proteção da propriedade intelectual: Foram destacadas falhas na aplicação de medidas contra a falsificação, prazos longos para exame de patentes e proteção inadequada contra a pirataria [3, 4, 6, 7, 8, 9, 11, 13].
  • Desflorestamento ilegal: O USTR concluiu que o Brasil não tem fiscalizado adequadamente as leis de combate ao desflorestamento ilegal, o que, segundo o órgão, confere uma vantagem competitiva injusta a certos produtos agrícolas e de madeira brasileiros [3, 4, 6, 7, 8, 9, 13, 18].

A proposta de tarifas inclui um extenso anexo de exceções, cobrindo mais de 1.600 classificações do Sistema Harmonizado de Tarifas dos EUA (HTSUS). Entre os itens isentos estão peças de aeronaves, produtos de petróleo e carvão, carne bovina, café e suco de laranja. As isenções visam evitar a indisponibilidade de suprimentos domésticos ou interrupções econômicas amplas [4, 7, 8, 13].

Impacto e por que importa

Para as empresas brasileiras com presença internacional ou exposição cambial, a imposição dessas tarifas representa um risco significativo. Exportadores de produtos não isentos podem enfrentar um aumento substancial nos custos, tornando-os menos competitivos no mercado americano. Em 2024, as exportações dos EUA para o Brasil totalizaram US$ 54,4 bilhões, enquanto as importações dos EUA do Brasil foram de US$ 39,9 bilhões, resultando em um superávit comercial de US$ 14,4 bilhões para os EUA [12].

O setor de etanol é um exemplo claro do impacto potencial. A queda de 87% nas exportações de etanol dos EUA para o Brasil entre 2018 e 2025 demonstra como as barreiras tarifárias podem alterar drasticamente os fluxos comerciais [7, 14]. Se as tarifas forem implementadas, empresas em outros setores podem precisar reavaliar suas estratégias de exportação para os EUA, buscando novos mercados ou ajustando suas cadeias de suprimentos.

O governo brasileiro, por sua vez, está buscando um acordo tarifário com os EUA, argumentando que as alegações de “práticas injustas” não são válidas e que a medida reflete o protecionismo comercial unilateral de Washington. O Brasil destaca que a tarifa média aplicada às importações dos EUA é de 2,7%, o que, em sua visão, não justifica a alegação de desvantagem para as empresas americanas [12]. A negociação é vista como difícil, dado o envolvimento dos EUA em outras discussões tarifárias globais e conflitos militares [12].

O que monitorar e próximos passos

Empresas brasileiras que exportam para os EUA devem monitorar de perto os seguintes desenvolvimentos:

  • Prazo para comentários públicos: O USTR está aceitando comentários escritos sobre a ação proposta até 1º de julho de 2026. As solicitações para participar da audiência pública devem ser enviadas até 22 de junho de 2026 [3, 4, 5, 6, 11]. Esta é uma oportunidade crucial para as empresas apresentarem suas preocupações e potencialmente influenciar o escopo final das tarifas [11].
  • Audiência pública: Uma audiência está agendada para 6 de julho de 2026, na Comissão de Comércio Internacional dos EUA [3, 4, 5, 6, 10, 11].
  • Decisão final do USTR: A data limite para o USTR tomar uma ação responsiva é 15 de julho de 2026. A decisão pode ser a finalização, modificação ou adiamento das tarifas, dependendo das negociações em andamento com o Brasil [5, 11, 12].
  • Negociações bilaterais: O governo brasileiro está engajado em negociações intensivas para buscar uma resolução. O resultado dessas conversas será determinante para a efetivação e o alcance das tarifas [5, 12].

Empresas que importam produtos brasileiros devem avaliar sua exposição, verificar se seus produtos estão nas listas de isenção propostas e considerar a participação no processo de comentários para influenciar o resultado. A incerteza regulatória pode levar à busca por diversificação de mercados e fontes de suprimento para mitigar riscos. A evolução das relações comerciais entre Brasil e EUA exigirá atenção contínua e adaptação estratégica por parte do setor empresarial.

Fontes consultadas

#eua-brasil#tarifas#comercio-internacional#etanol#ustr#politica-comercial

Mais em Geopolítica

Geopolítica 30 de jun. de 2026 · Redação FWD

China emerge como beneficiária estratégica da crise no Estreito de Ormuz

A crise no Estreito de Ormuz está reconfigurando o equilíbrio de poder global, com a China se destacando como a principal beneficiária econômica e geopolítica. Estratégias como grandes reservas de petróleo, rápido avanço em energias renováveis e uma política industrial robusta permitiram a Pequim mitigar impactos negativos, impulsionar exportações de tecnologias verdes e contrastar sua imagem com a dos EUA, redefinindo dinâmicas de cadeias de suprimentos e mercados de energia globais.

Geopolítica 25 de jun. de 2026 · Redação FWD

G7 estabelece metas de diversificação para minerais críticos, posicionando Brasil como fornecedor estratégico

A Cúpula do G7 em Évian-les-Bains, França, concluiu com um compromisso firme dos líderes em diversificar as cadeias de suprimentos de minerais críticos, visando reduzir a dependência de fornecedores únicos. O grupo estabeleceu a meta de diminuir para menos de 60% a dependência de qualquer fornecedor externo para terras raras e ímãs permanentes até 2030, lançando a Aliança G7 de Resiliência e Produção de Minerais Críticos.