Agency FWD
Geopolítica 19 de junho de 2026 às 11:00 · Redação FWD

China e Brasil avançam em pagamentos instantâneos em meio a críticas dos EUA ao Pix

A China sinaliza interesse em aprofundar a cooperação com o Brasil em sistemas de pagamento, como o SML, para facilitar o comércio bilateral e reduzir a dependência do dólar. O movimento ocorre após os Estados Unidos classificarem o Pix como uma "prática desleal" em investigação comercial, alegando conflito de interesses na gestão do Banco Central, o que pressiona empresas brasileiras com exposição cambial e no comércio internacional.

China e Brasil avançam em pagamentos instantâneos em meio a críticas dos EUA ao Pix
Foto: www.kaboompics.com no Pexels

Em um cenário de crescentes tensões comerciais e buscas por alternativas ao dólar nas transações internacionais, a China manifestou interesse em estreitar a cooperação com o Brasil em sistemas de pagamentos instantâneos. Este movimento estratégico surge em um momento em que os Estados Unidos classificam o Pix, sistema de pagamentos brasileiro, como uma “prática desleal” em uma investigação comercial, intensificando o debate sobre soberania financeira e a dinâmica do comércio global.

O que mudou na prática

A sinalização chinesa foi formalizada em um comunicado do Banco Central da China, divulgado neste mês, que resumiu as discussões do 4º encontro do Grupo de Trabalho de Cooperação Financeira Estratégica China-Brasil, realizado em Xangai em 9 de junho. A reunião contou com a presença do presidente do Banco Central brasileiro, Gabriel Galípolo, e abordou temas cruciais como o uso de moeda local, investimentos, financiamento bilateral e pagamentos transfronteiriços.

No documento, a autoridade monetária chinesa destacou o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML), um mecanismo já administrado pelo Banco Central do Brasil e atualmente empregado em operações no âmbito do Mercosul. A menção ao SML e o interesse em expandir a cooperação em pagamentos instantâneos indicam uma busca ativa por mecanismos que possam facilitar o comércio bilateral entre Brasil e China, potencialmente reduzindo a dependência do dólar americano nas transações.

Paralelamente, os Estados Unidos incluíram o Pix em uma investigação comercial que pode resultar em tarifas de 25% sobre exportações brasileiras. Segundo as autoridades americanas, o Pix representa uma política “desleal” por supostamente conceder tratamento preferencial ao Banco Central brasileiro. A avaliação sustenta que o fato de o BC atuar tanto como regulador do sistema financeiro quanto como gestor do Pix criaria um conflito de interesses, colocando provedores de pagamento dos Estados Unidos em desvantagem.

Impacto e por que importa

Para empresas brasileiras com presença internacional ou exposição cambial, este desenvolvimento tem implicações significativas. A potencial expansão do uso de sistemas de pagamento em moeda local com a China pode oferecer uma alternativa para mitigar riscos cambiais e reduzir custos de transação, especialmente para exportadores e importadores. A desdolarização do comércio bilateral com o maior parceiro comercial do Brasil, que absorve quase 30% das exportações nacionais, pode trazer maior previsibilidade e estabilidade para as operações.

No entanto, a pressão dos EUA sobre o Pix e a ameaça de tarifas adicionais criam um ambiente de incerteza. Empresas que dependem do mercado americano ou que utilizam o Pix em suas operações podem enfrentar desafios regulatórios e comerciais. A disputa em torno do Pix eleva a importância de as empresas avaliarem suas estratégias de pagamentos e a exposição a diferentes moedas, bem como monitorarem de perto as políticas comerciais e financeiras dos principais blocos econômicos.

Este cenário reflete uma tendência geopolítica mais ampla de reorganização das cadeias globais de produção e comércio, onde países buscam maior segurança econômica e redução de dependências. A priorização de previsibilidade, estabilidade regulatória e diversificação de parceiros comerciais e mecanismos de pagamento torna-se crucial para a resiliência dos negócios brasileiros.

O que monitorar e próximos passos

Empresas brasileiras devem monitorar de perto os seguintes pontos:

  • Avanço das negociações Brasil-China: A concretização de acordos para a expansão do SML ou outros sistemas de pagamentos em moeda local pode redefinir as operações de comércio com a China.
  • Desdobramentos da investigação dos EUA sobre o Pix: As decisões da investigação americana e a eventual imposição de tarifas terão impacto direto nas exportações brasileiras e na percepção global sobre o sistema financeiro do país.
  • Políticas de desdolarização: Observar como outros países e blocos econômicos reagem às pressões por desdolarização e como isso pode abrir ou fechar novas oportunidades de comércio e investimento.
  • Adaptação de estratégias financeiras: Empresas devem considerar a diversificação de suas operações cambiais e a exploração de novas ferramentas de pagamento para reduzir a vulnerabilidade a flutuações e tensões geopolíticas.

O ambiente global exige uma leitura estratégica e jurídica aprofundada do comércio exterior, indo além da perspectiva meramente operacional. A capacidade de adaptação e a busca por novos mercados e mecanismos financeiros serão diferenciais competitivos para as empresas brasileiras no cenário geopolítico atual.

Fontes consultadas

#china#brasil#pix#pagamentos-instantaneos#comercio-internacional#desdolarizacao

Mais em Geopolítica

Geopolítica 30 de jun. de 2026 · Redação FWD

China emerge como beneficiária estratégica da crise no Estreito de Ormuz

A crise no Estreito de Ormuz está reconfigurando o equilíbrio de poder global, com a China se destacando como a principal beneficiária econômica e geopolítica. Estratégias como grandes reservas de petróleo, rápido avanço em energias renováveis e uma política industrial robusta permitiram a Pequim mitigar impactos negativos, impulsionar exportações de tecnologias verdes e contrastar sua imagem com a dos EUA, redefinindo dinâmicas de cadeias de suprimentos e mercados de energia globais.

Geopolítica 25 de jun. de 2026 · Redação FWD

G7 estabelece metas de diversificação para minerais críticos, posicionando Brasil como fornecedor estratégico

A Cúpula do G7 em Évian-les-Bains, França, concluiu com um compromisso firme dos líderes em diversificar as cadeias de suprimentos de minerais críticos, visando reduzir a dependência de fornecedores únicos. O grupo estabeleceu a meta de diminuir para menos de 60% a dependência de qualquer fornecedor externo para terras raras e ímãs permanentes até 2030, lançando a Aliança G7 de Resiliência e Produção de Minerais Críticos.