EUA formalizam proposta de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, citando Pix, e exportações já caem
O Escritório do Representante para o Comércio dos EUA (USTR) concluiu sua investigação comercial contra o Brasil e propôs formalmente uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, alegando práticas comerciais desleais que incluem o sistema Pix. A medida, que pode afetar quase metade das exportações brasileiras para os EUA, intensifica a pressão sobre empresas com exposição cambial, em um cenário onde a participação americana nas vendas externas do Brasil já registrou queda significativa.
O cenário comercial entre Brasil e Estados Unidos atingiu um novo patamar de tensão com a formalização, pelo Escritório do Representante para o Comércio dos EUA (USTR), de uma proposta de tarifa de 25% sobre uma ampla gama de produtos brasileiros. A medida, que surge após a conclusão de uma investigação comercial, cita explicitamente o sistema de pagamentos Pix como uma das práticas brasileiras consideradas injustas e discriminatórias contra empresas americanas. Este movimento ocorre em um momento em que a participação dos EUA nas exportações brasileiras já registra uma queda acentuada.
O que mudou na prática
A investigação, conduzida pelo USTR com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974 dos EUA, foi concluída e resultou na recomendação de uma tarifa adicional de 25% sobre produtos importados do Brasil. O relatório do USTR aponta uma série de “preocupações antigas e persistentes” em relação às políticas e práticas comerciais brasileiras. Entre as críticas, destacam-se alegadas restrições impostas a empresas tecnológicas norte-americanas, falhas na proteção da propriedade intelectual, questões relacionadas ao desmatamento e corrupção, além de acordos comerciais preferenciais.
O ponto de maior destaque na formalização é a inclusão do Pix. O USTR declarou que “os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios”. Na avaliação norte-americana, o Banco Central brasileiro, ao atuar como regulador e gestor do Pix, criaria um conflito de interesses que desfavoreceria provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA.
É importante ressaltar que esta nova proposta de tarifa não substitui as tarifas já aplicadas pelos EUA sobre setores como aço e alumínio, que foram impostas em julho de 2025 pelo governo de Donald Trump. A decisão final sobre a implementação da tarifa de 25% caberá ao presidente dos Estados Unidos, após uma fase de consulta pública que o USTR conduzirá até 15 de julho.
Impacto e por que importa para as decisões de negócio
Os efeitos das tensões comerciais já são visíveis. A participação dos Estados Unidos na pauta de exportações brasileiras caiu para 9,3% entre agosto de 2025 e maio de 2026. Este é o menor patamar registrado desde o início da série histórica do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic), em 1997. No período imediatamente anterior às tarifas de 2025, os EUA respondiam por 12,4% das vendas externas do Brasil. Em seu pico, em 2002, a participação chegou a 26%.
Com a nova sobretaxa proposta, o cenário pode se agravar ainda mais. Estima-se que a tarifa de 25% possa atingir até 45,8% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos, com base no fluxo comercial de 2024. O governo federal, por sua vez, calcula um impacto menor, de cerca de 21%. Os reflexos são percebidos em quase todo o país, com 24 dos 26 estados e o Distrito Federal registrando redução da participação americana em suas exportações após as medidas tarifárias anteriores.
Para empresas brasileiras com presença internacional ou exposição cambial, este cenário exige uma reavaliação estratégica. A diversificação de mercados, já uma tendência, torna-se ainda mais crucial. A busca por novos parceiros comerciais, como a China e a União Europeia, pode mitigar os riscos associados à dependência do mercado americano. A China, inclusive, já sinalizou interesse em aprofundar a cooperação com o Brasil em sistemas de pagamento, buscando alternativas para facilitar o comércio bilateral sem depender do dólar, em um movimento que contrasta com a postura dos EUA em relação ao Pix.
Além disso, a conformidade com as exigências internacionais em áreas como propriedade intelectual, desmatamento e práticas anticorrupção deve ser priorizada. A percepção de “práticas desleais” pode levar a barreiras comerciais não apenas com os EUA, mas com outros parceiros que adotam critérios semelhantes. Empresas que já investem em governança e sustentabilidade podem ter uma vantagem competitiva neste novo ambiente.
O que monitorar e próximos passos
O principal ponto a ser monitorado é a decisão final do presidente Donald Trump sobre a implementação das tarifas, que ocorrerá após o período de consulta pública do USTR, com previsão de relatório definitivo para 15 de julho. A postura do governo brasileiro, que já manifestou “indignação” e busca fortalecer laços com outros parceiros, será fundamental nas negociações.
Empresas devem acompanhar de perto os desdobramentos e avaliar a composição de suas exportações para os EUA, identificando os produtos potencialmente mais afetados. Estratégias de mitigação, como a busca por certificações que atestem boas práticas ambientais e de governança, e a exploração de novos mercados, são essenciais. O cenário eleitoral nos EUA também será um fator relevante, pois a política comercial pode ser reavaliada dependendo do resultado das eleições. A diversificação de cadeias de suprimentos e a adaptação a um ambiente comercial global mais fragmentado e protecionista são movimentos estratégicos de longo prazo que se tornam imperativos.
Fontes consultadas
- EUA propõem novas tarifas de 25% sobre produtos brasileiros após investigação comercial · Nuno Tibiriçá
- O Pix assusta Washington · Migalhas
- Exportações do Brasil aos EUA desabam após tarifaço de Trump · Gazeta do Povo
- Tarifaço de Trump fazem exportações do Brasil aos EUA desabarem · OCP News
- China busca sistema de pagamentos instantâneos com o Brasil, enquanto os EUA atacam o Pix · Brasil 247